Monthly Archives: April 2012

Por que é gostoso ir ao estádio?

As férias de janeiro de 2000 tiveram um sabor especial para mim. Estava no auge da minha paixão pelo Corinthians e não poderia estar mais feliz: meu time havia acabado de ser bicampeão brasileiro e estava disputando o primeiro Mundial Interclubes da Fifa. No dia 7 de janeiro daquele ano, o Corinthians iria enfrentar um adversário poderoso, o Real Madrid, de Roberto Carlos e Raul. O jogo seria quente, mas de torcida única, por isso, meu pai achou que seria uma boa ideia me levar pela primeira vez ao estádio – o jogo seria no Morumbi. Saímos de casa e eu lembro até da roupa que eu estava usando: uma camisetinha vermelha e macacão jeans. Mas chovia tanto que, quando chegamos à Rua da Consolação, meu pai achou melhor voltarmos. Segundo ele, eu não fiquei brava, só um pouquinho triste, mas lembro de ter ficado aliviada por chegar em casa a tempo de assistir ao jogo.

Eu não fui ao jogo, mas, 9 anos depois, um amigo que foi fez questão de me presentear com o ingresso :)

E as previsões não erraram, o jogo foi quente. Aos 18 minutos do primeiro tempo, Anelka marcou para o Real Madrid. Dez mais tarde, Edílson deixou tudo igual, para depois virar. Anelka deu o troco e igualou o placar mais uma vez. Quando tudo parecia definido, Anelka, de novo, sofreu falta na grande área. Chutou forte, mas foi impedido de comemorar por Dida, que fez jus à fama de muralha e defendeu mais um pênalti. O placar ficou 2 a 2 e esse foi o melhor jogo que eu não fui.

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Oito anos depois desse episódio, fiz, enfim, minha estreia no estádio. Dessa vez, a situação era um tanto diferente: o jogo era contra o São Caetano, o estádio era o Pacaembu e o campeonato era a Série B do Brasileirão. Mas a minha ansiedade era digna da criança de 11 anos que eu era em 2000. O jogo foi apenas 1 a 0 para o Corinthians, mas ver aquele único gol ao vivo e sentir a vibração da torcida, literalmente, na pele me fez amar estar ali. Naquele ano, voltei ao estádio mais 3 vezes. Vi um empate suado (Corinthians x Santo André) e duas vitórias tranquilas (Corinthians x Paraná e Corinthians x Fortaleza), que apenas reforçaram o quanto eu realmente gostava de viver aquilo. Mas, depois dessas 4 vezes, não sei bem o porquê, ir ao jogo virou algo raro.

Desde a minha estreia, em 2008, fui apenas 12 vezes ao estádio (e só 5 foram partidas do Corinthians) e, por isso, não posso dizer que sou uma frequentadora assídua. No entanto, toda vez que vou ao jogo, parece que tenho 11 anos de novo. A mágica começa quando entro no estádio e vejo aquele verde tão verde do gramado. Ainda me impressiona pensar que tanta coisa acontece “dentro” daquele retângulo marcado por linhas brancas. Em seguida, vem aquela sensação, que mistura medo e animação, otimismo e pessimismo, e só cresce quando o apito soa e a bola rola. Cada lance é uma surpresa em tamanho real (ou quase isso) e, em alguns momentos, até gritamos “GOL” na hora errada, tamanha é a vontade de comemorar. Mas quando ele finalmente acontece, não existe sensação igual. Você simplesmente sabe o porquê de estar ali. Às vezes, 90 minutos parecem pouco. Outras, muito. Às vezes, parece que a bola rola em câmera lenta. Em outras, ela rola rápido demais. O resultado nem sempre é satisfatório e não há frustração pior do que sair do estádio sem ver um gol sequer. Mas (quase) nada é capaz de arruinar esse momento.

No último domingo, foi a primeira vez que estive no estádio quando o Corinthians perdeu e foi eliminado. Sim, foi triste. Mas muito menos do que se eu estivesse em casa, sozinha. Estar ali me fez sentir confortável por poder dividir a minha frustração com tanta gente, ainda que em silêncio. Ao mesmo tempo, ouvir a vibração da torcida, mesmo com a derrota, lava a alma e faz esquecer um pouco a decepção. Porque aquilo é verdade, é Corinthians e, acima de tudo, é futebol. E é por isso que gosto tanto de ir ao estádio. Porque me faz lembrar da minha paixão na infância e do jogo que nunca fui, mas que guardo com todo o carinho. Me faz sentir à flor da pele e, de vez em quando, isso é bom. Mas , principalmente, não me deixa esquecer por que eu gosto tanto desse esporte: afinal, futebol não são apenas 22 caras correndo atrás de uma bola. Futebol é algo que se sente.

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Not Dead and Not For Sale

Se eu ainda pensasse que rockstars eram homens inatingíveis e inabaláveis, Not Dead and Not For Sale, a autobiografia de Scott Weiland, líder do Stone Temple Pilots e ex-vocalista do Velvet Revolver, teria acabado com a minha teoria. No livro, co-assinado por David Ritz, Scott se mostra tão simples e humano como qualquer um de nós e parece querer muito mais do que simplesmente contar sua trajetória no mundo da música: é como se ele procurasse por respostas para os seus próprios questionamentos e razões para perdoar a si mesmo por tantos erros cometidos ao longo dos anos. É possível dizer até que sua bem-sucedida carreira (apesar de subestimada) serve como pano de fundo para suas histórias de amor – com a música, as (poucas) mulheres e, por que não, com as drogas.

Capa dura com letras douradas e sobrecapa

O que mais estou gostando nessa brincadeira de ler biografias de cantores é que elas me ajudam a “desvendar” as músicas da banda em questão e, consequentemente, acabo amando-as mais ainda. No caso do Scott, consegui entender de onde veio a inspiração para tantas canções maravilhosas: da infância conturbada, das reflexões sem propósitos, das revoltas passageiras, do universo paralelo das drogas, das perdas irreparáveis, dos sentimentos incompreendidos, mas, principalmente, dos casos de amor mal-resolvidos e da mulher de sua vida, Mary Forsberg. Em outras palavras, ele foi capaz de transformar todas as suas frustrações e realizações em música. Algumas são perfeitas, a maioria é muito boa, outras são apenas boas e outras poucas, nem tanto. Mas todas têm aquele toque pessoal que, na minha opinião, é o principal ingrediente para canções memoráveis, que transpiram verdade.

Voltando ao livro, é fácil notar que escrever a autobiografia foi a maneira que Scott encontrou de exorcizar os seus demônios e (tentar) recomeçar do zero. Em Not Dead and Not For Sale, ele não tenta se justificar. Pelo contrário, assume todas as culpas que carrega e também se isenta daquelas que não acredita serem justas. Fala sobre os acontecimentos que marcaram sua vida e que, de alguma forma, guiaram sua história e também conta seus casos de amor e histórias inusitadas. Em resumo, o livro é um desabafo sincero. É denso e intenso ao mesmo tempo em que parece ser um bate-papo despretensioso com muitas doses de sarcasmo e senso de humor peculiar.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: fotos do casamento, journal of memories (sim, o que ele cita e que aparece em Fall to Pieces, do Velvet Revolver) e muitas fotos pessoais.

 Not Dead and Not For Sale me fez chorar como um bebê, de um jeito que nenhum outro livro já havia feito. Em partes, porque, como disse na resenha sobre a autobiografia de Anthony Kiedis, o que li naquelas páginas não era ficção. Elas aconteceram, são de verdade e fazem parte da história de alguém. Mas as maiores razões para tantas lágrimas foram a humildade e a sinceridade de Scott. A culpa, o remorso, a mágoa e o arrependimento, infelizmente, estão presentes em todo o livro e é triste pensar que também façam parte da vida do cantor. No entanto, ao final da obra, você se surpreende (e, no meu caso, se alivia) por saber que Scott acredita ainda ter muitas coisas para fazer nesse mundo. E isso me faz pensar que escrever essa autobiografia possibilitou que ele descobrisse muito mais do que as respostas que procurava: acho que encontrou a redenção ♥

“I am, I am, I said I’m not myself, but I’m not dead and I’m not for sale. Hold me closer, closer let me go. Let me be, just let me be” – de Trippin’ on a hole in a paper heart, Stone Temple Pilots

Título original: Not Dead and Not For Sale
Autor: Scott Weiland com David Ritz
Ano: 2011
Páginas: 288
Tempo de leitura: 4 dias
Avaliação: 5 estrelas

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We Die Young

O talento de Layne Staley, vocalista do Alice in Chains, era inegável: sua voz não era apenas poderosa ou afinada; tocava no fundo da alma. Ou melhor, ainda toca. No entanto, minha admiração por ele vai além disso: gosto mesmo – e muito – do contraste entre a voz forte e a aparência quase frágil; entre as músicas profundas e sombrias que era capaz de escrever e o senso de humor apurado que tinha. Parecia ser um homem tão doce quanto amargurado.

No dia 5 de abril de 2002, Layne morreu, vítima de overdose. Na época, eu não lembro de ter tomado conhecimento do fato e, se tomei, não me importei. Mas hoje, depois de conhecer mais sobre o Grunge e descobrir o Alice in Chains, eu me sinto no direito de lamentar. E o que me consola é saber que o que ele criou irá viver para sempre e ainda conquistará muitas pessoas, como eu, mesmo que com anos de atraso.

As músicas que Layne escreveu podem não ter sido o suficiente para aliviar a angústia e solidão que ele mesmo sentia. Mas tenho certeza que foram capazes de acalmar muitos outros corações inquietos.

“If I can’t be my own… I’d feel better dead”, Layne Staley – Thanks and RIP ♥

Hoje também é aniversário da morte de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana e outro ícone do Grunge. 18 anos se passaram.

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